terça-feira, 6 de setembro de 2016

O Avô Miguel



O Homem que Abriu a Porta

No Bairro de São Pedro, em Nova Lisboa, onde as manhãs acordavam com o apito distante dos Caminhos-de-Ferro de Benguela, vivia um homem que parecia feito de outra matéria — mais leve, mais luminosa, mais humana. Chamava-se Miguel. Eu conheci-o quando ainda era criança, mas foi suficiente para perceber que havia algo nele que não se explica, apenas se sente: uma espécie de bondade que não precisava de palavras para se fazer notar.

Diziam que tinha sido educado num colégio de padres, em Malanje, e talvez fosse de lá que lhe vinha aquele porte sereno de quem conhece o silêncio e o respeito. Casou com a avó Lurdes depois de um namoro demorado, daqueles que crescem devagar, como mangueiras teimosas que procuram o sol até o encontrarem.

A avó Lurdes chegou a Nova Lisboa vinda de Teixeira de Sousa, com o coração cansado da separação do seu primeiro marido, António Santos. Aproximou-se da minha família como quem procura porto, e eu, com a minha tenra idade, tornei-me a sua escriba. Lia-lhe as cartas que vinham de todas as partes de Angola e ajudava-a a responder às que lhe pediam notícias, conselhos ou apenas lembranças.

Mais tarde chegaram as netas, Bela e Nela, e o filho Manuel Jacaré, vindos do Leste. A casa ganhou novos sons: risos de meninas, passos apressados, conversas longas ao final da tarde. O Manuel encontrou uma mulher e mudou-se para outra casa ali perto, levando consigo o pai, o antigo marido da avó Lurdes, cuja vida em Teixeira de Sousa já não lhe oferecia chão nem futuro. Abriram juntos um pequeno negócio e, entre altos e baixos, foram vivendo.

Até que, um dia, algo se quebrou. Nunca soube ao certo o quê. Talvez palavras mal ditas, zangas acumuladas, cansaços que não se confessam. Sei apenas que o avô António Santos, magoado e doente, abandonou a casa do filho e vagueou sem destino por alguns dias, como quem procura uma porta que já não sabe onde existe.

Encontrou-a, por fim, onde menos se esperava: na casa da ex-mulher.

Quando ele apareceu, frágil, quase um vulto do homem que fora, ninguém imaginou qual seria a reação do casal. A vizinhança preparou-se para o escândalo, para o julgamento. Mas o avô Miguel, com a sua quieta grandeza, apenas abriu a porta e disse que sim — que ali havia lugar, que ninguém seria deixado ao abandono enquanto ele tivesse mãos para ajudar e coração para acolher.

A avó Lurdes, com a mesma firmeza silenciosa, concordou. E assim, contrariando murmúrios, maledicências e moralismos, os dois acolheram o homem que um dia fizera parte da vida dela. Não por romance perdido, não por nostalgia, mas por algo infinitamente maior: humanidade.

O avô António Santos viveu ali o resto dos seus dias. Entre cuidados, pequenas rotinas, o carinho das netas e a dignidade que só quem é verdadeiramente bom sabe oferecer. Morreu amparado, e não sozinho — e talvez isso tenha sido o último gesto de justiça que a vida lhe concedeu.

Hoje, quando penso no avô Miguel, vejo-o ainda na porta daquela casa simples de Nova Lisboa, com o sol do fim da tarde refletido na camisa de trabalho. Um homem calmo, sem grandes discursos, mas com gestos que ficaram gravados na memória como se fossem páginas de um livro que nunca terminei de ler.

E percebo, agora adulta, aquilo que apenas intuía em criança:
há pessoas que não vivem para serem admiradas.
Vivem para ensinar — com exemplos.
Vivem para abrir portas.



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