sábado, 28 de março de 2026

Sapatos e suas histórias



Gosto de olhar para os sapatos das pessoas.

Não lhes vejo o preço, nem a marca — vejo-lhes o caminho. Há qualquer coisa nos sapatos que conta histórias que a boca não diz. Por isso, às vezes, paro numa rua qualquer e deixo que os pés dos outros me contem vidas inteiras.

Vejo-os passar.

Uns chegam leves, quase sem tocar o chão. Sapatos impecáveis, como se o mundo não lhes pesasse. Imagino-os a sair de carros, a entrar em portas que se abrem antes de baterem. Caminham pouco, mas parecem sempre saber para onde vão.

Outros vêm mais depressa, mais gastos, com pressa nos passos. São sapatos de quem tem horas marcadas com a vida — trabalho, responsabilidades, dias que não esperam. Não são muitos, mas são fiéis. Vão onde é preciso, todos os dias.

E depois há aqueles que me prendem o olhar.

Sapatos simples. Às vezes nem são sapatos — são chinelos, sandálias já cansadas, solas que conhecem o calor da estrada. Esses contam histórias mais longas. Caminham sem descanso, levam o peso dos dias e ainda assim continuam. Neles há uma resistência silenciosa, quase teimosa.

Fico ali, a imaginar.

Quantos quilómetros terá feito aquele par?
Que sonhos pisaram?
Que portas ficaram por abrir?

As pessoas passam por mim sem saber que as leio pelos pés. E talvez ainda bem. Há uma intimidade nisso, como se cada passo fosse uma confissão.

De vez em quando olho para os meus próprios sapatos. Pergunto-me que história contam. Se mostram o que vivi ou apenas o que deixei por viver.

E sigo caminho.

Porque, no fim, todos somos um pouco isto —
um par de sapatos a atravessar o tempo,
a deixar marcas no chão,
à procura de um lugar onde parar.

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