terça-feira, 11 de agosto de 2026

Viajando pela Grécia


Já há muitos anos que queria fazer uma viagem até ao país dos meus antepassados, até que aconteceu. Marquei a viagem com destino a Atenas e, depois, viajar por outras ilhas.

Fui com uma amiga que me acompanha nas viagens que tenho feito e lá viajámos em direção ao país que inventou a democracia, do qual eu tenho origens e tinha muita curiosidade em conhecer. Fazia parte do meu imaginário há muitos anos. Aconteceu em 2017.

Chegámos a Atenas de manhã cedo, fomos para o hotel e ficámos em Atenas um dia, que deu para ver algumas coisas. É uma cidade simpática, mas não tem muita beleza. Os monumentos emblemáticos estão muito bem cuidados. São um povo simpático e hospitaleiro. Comemos em vários restaurantes e, ao cair da noite, fomos para o aeroporto, a fim de apanharmos o avião até a uma das ilhas. Fomos para Rhodes, uma ilha bonita, mas muito turística. Aliás, a exploração das unidades hoteleiras é feita por estrangeiros, nórdicos, russos e muitas outras nacionalidades. Tem um mar lindo e água quente.

De Rhodes fomos até Symi, outra ilha bonita. Aqui já se nota a essência da ilha: é de pescadores. Embora haja bastantes turistas, eles ali vivem da pesca. Symi é uma ilha muito diferente de Rhodes, mais pequena, mais tranquila e com uma identidade muito própria. Antigamente, a ilha viveu muito da pesca das esponjas e da construção naval, o que trouxe alguma riqueza e explica as bonitas casas que se veem nas encostas, todas muito coloridas e construídas em estilo neoclássico.

Há também em Symi um lugar muito especial, o Mosteiro de Panormitis, dedicado ao Arcanjo Miguel. É um local de grande devoção, onde muitas pessoas vão fazer pedidos e promessas. Existe uma tradição muito bonita: as pessoas fazem uma promessa ao Arcanjo Miguel, pedem uma graça e, se o pedido for atendido, regressam mais tarde ao mosteiro para cumprir aquilo que prometeram. É um lugar de peregrinação muito importante e, mesmo para quem não é religioso, sente-se ali uma atmosfera diferente, de respeito e de fé.

Lembro-me de achar interessante esta tradição das promessas e de perceber como aquelas pessoas mantêm uma ligação muito forte com o santo. Há qualquer coisa de muito humano nisso: pedir quando precisamos de ajuda e voltar para agradecer quando a vida nos concede aquilo que desejávamos.

Symi ficou-me na memória precisamente por isso: pela beleza das suas casas, pelo mar, pelos pescadores e por aquela sensação de ainda existir ali uma vida mais ligada às tradições e às pessoas, apesar dos muitos turistas que entretanto chegaram.

No barco que me levou até Symi iam muitas pessoas de vários países. Como gosto de conversar e conhecer pessoas, fui interagindo com algumas delas e, numa dessas conversas, uma senhora contou-me que ia até Panormitis para cumprir uma promessa. Fiquei muito curiosa e perguntei-lhe sobre essa tradição.

Panormitis é um lugar muito especial em Symi, onde se encontra o Mosteiro do Arcanjo Miguel. É um local de grande devoção, onde muitas pessoas vão fazer pedidos e promessas. Quando a graça que pediram é concedida, regressam mais tarde para cumprir aquilo que prometeram.

Fiquei tão interessada que pedi à minha amiga para irmos também a Panormitis. Mas ela não aceitou, porque a subida daquela montanha era difícil e não se sentia com disposição para fazer aquele percurso. Fiquei com pena de não ter ido, porque aquela conversa no barco tinha despertado em mim uma grande curiosidade.

São estas pequenas coisas que muitas vezes ficam de uma viagem: uma conversa com alguém que nunca mais vemos, uma história que nos é contada e que, de repente, passa a fazer parte das nossas memórias.

Symi ficou-me na memória pela beleza das suas casas, pelo mar, pelos pescadores e também por aquela história da senhora que ia cumprir a sua promessa. Ainda hoje penso que teria gostado de ter ido até Panormitis.

Entretanto, no ano seguinte, voltei a Atenas. Desta vez, a viagem levou-nos até Creta.


 

segunda-feira, 6 de julho de 2026

 A minha mãe, pessoa doce, para mim a melhor e maior mãe do mundo.

A D. Olga era uma mulher guerreira. Lembro-me de a ver algumas vezes doente e deitada na cama. Pedia à Rosa para lhe fazer chá de barbas de milho. Tinha dores, mas não se queixava, e eu, ainda menina, só pedia a Deus que as dores lhe passassem. Também dizia para comigo própria: “Se a minha mãe morrer, quero morrer com ela.” Tal era o medo de ficar sozinha, instinto normal de uma criança em relação à mãe!!

Mas hoje não vou divagar sobre as coisas menos boas. A casa da D. Olga era um espaço onde o bairro inteiro gostava de estar, pelas conversas, pelas brincadeiras com os filhos — que éramos seis — e também onde se jogava a tudo: desde o ringue ou queimados, saltar à corda, jogar basquetebol, cartas, loto, etc.

Há passagens de que me lembro. Ela barbeava os senhores mais velhos do bairro que viviam próximos da nossa casa. Todos os fins de semana, lá ia o senhor Roque e também o avô Santos, e mais alguns que lhe pediam para os barbear. Nunca perguntei o porquê de ela ter de os barbear; eles pediam e ela fazia.

Para irmos às festas, as mães das nossas amigas só as deixavam ir se a minha mãe fosse. Caso contrário, o sábado era passado em casa.

Ensinou muitos rapazes do bairro a dançar, sobretudo o tango e a valsa. Ficava na sala a ensinar o Joaquim, o Valdemar e os nossos primos que queriam arranjar namoradas e só através da dança é que chegavam às miúdas. Coisas que só aconteciam no antigamente e talvez no nosso bairro, em que éramos uma família.

Quando chegámos a Portugal, e dada a facilidade com que ela fazia amizades, além de ser uma pessoa autêntica e genuína, começou a tomar conta dos bebés das raparigas que queriam sair à noite.

Enfim, a minha mãe era assim: de uma entrega ao próximo, uma pessoa alegre e pura. Eram essas as qualidades que sobressaíam de alguém como ela.

Era assim a D. Olga!!

Obrigada, querida mãe. Apesar de não estares entre nós, estás sempre presente nas nossas vidas e na vida dos teus netos, que nunca te esquecem.

A Iris conhece a tua história através de mim. Contei-lhe muitas histórias sobre a nossa vida em Angola.

sábado, 28 de março de 2026

Sapatos e suas histórias



Gosto de olhar para os sapatos das pessoas.

Não lhes vejo o preço, nem a marca — vejo-lhes o caminho. Há qualquer coisa nos sapatos que conta histórias que a boca não diz. Por isso, às vezes, paro numa rua qualquer e deixo que os pés dos outros me contem vidas inteiras.

Vejo-os passar.

Uns chegam leves, quase sem tocar o chão. Sapatos impecáveis, como se o mundo não lhes pesasse. Imagino-os a sair de carros, a entrar em portas que se abrem antes de baterem. Caminham pouco, mas parecem sempre saber para onde vão.

Outros vêm mais depressa, mais gastos, com pressa nos passos. São sapatos de quem tem horas marcadas com a vida — trabalho, responsabilidades, dias que não esperam. Não são muitos, mas são fiéis. Vão onde é preciso, todos os dias.

E depois há aqueles que me prendem o olhar.

Sapatos simples. Às vezes nem são sapatos — são chinelos, sandálias já cansadas, solas que conhecem o calor da estrada. Esses contam histórias mais longas. Caminham sem descanso, levam o peso dos dias e ainda assim continuam. Neles há uma resistência silenciosa, quase teimosa.

Fico ali, a imaginar.

Quantos quilómetros terá feito aquele par?
Que sonhos pisaram?
Que portas ficaram por abrir?

As pessoas passam por mim sem saber que as leio pelos pés. E talvez ainda bem. Há uma intimidade nisso, como se cada passo fosse uma confissão.

De vez em quando olho para os meus próprios sapatos. Pergunto-me que história contam. Se mostram o que vivi ou apenas o que deixei por viver.

E sigo caminho.

Porque, no fim, todos somos um pouco isto —
um par de sapatos a atravessar o tempo,
a deixar marcas no chão,
à procura de um lugar onde parar.