Acabei de fazer um bolo tipo mármore… Só alguém que não tivesse nada para fazer se lembraria de, às duas e tal da manhã, fazer um bolo. Não é o meu caso, porque tenho inúmeras coisas para fazer, sobretudo porque estamos a chegar ao Natal e, nesta época, há sempre tanto para tratar…
Este ano estou triste. Os meus filhos estão fora e, mais um ano, terei de ir passar o Santo André com a minha irmã. Desta vez não me apetece ir, mas também não me apetece passar aqui sozinha. Logo encontrarei uma solução…
Cada ano que passa gosto menos do Natal, sobretudo desde que fiquei sozinha. O Toninho era um adepto incondicional do Natal e isso acabava por me contagiar. A alegria que colocava em tudo era contagiante. Quando chegava o momento dos presentes, tinha sempre uma surpresa para mim. Não se esquecia de ninguém; mesmo que chegasse fora de horas, lembrava-se sempre de um sobrinho ou de alguém que faltava.
Tenho tantas saudades desses tempos… Mas nada posso fazer, a não ser recordar os bons momentos que passámos juntos. Tivemos sempre aquela cumplicidade tão nossa. Infelizmente, partiu cedo demais.
Hoje, mais do que nunca, tenho saudades dele. Faz-me falta em todos os aspetos: nas longas conversas que tínhamos sobre as viagens que fez em Angola, sobre o tempo do serviço militar e sobre tantas outras histórias que gostava de contar.
Quando pegava na guitarra e começava a dedilhar uns acordes, acabávamos sempre a cantar juntos alguma canção. Sentados na sala, ficávamos horas a fio a cantar. E, se colocasse um som no DVD, então era certo: se fosse para dançar, rodopiávamos pela sala ao som de um semba, de um tango ou de um bolero.
Que saudades, meu Deus!
Foi pai, marido, amante e amigo. Tinha aquela frontalidade que lhe era tão peculiar, mas eu amava-o muito. Era sempre amigo do seu amigo, fiel a si próprio, como dizia a Fatinha: “Igual a ele próprio!”
Os filhos e a esposa eram sagrados, como ele dizia. Havia uma entrega total à família. Era assim que ele vivia e era assim que amava.
Fiquei de rastos quando partiu. Hoje estou mais recomposta e também mais conformada, porque o tempo acaba por nos ensinar que a vida é mesmo assim. Já consigo falar dele sem chorar, embora a saudade nunca desapareça.
Hoje completaria mais um ano. Não há um único dia em que não fale de ti, mesmo que seja apenas no pensamento. Apesar de já terem passado alguns anos, continuas sempre ao meu lado e ao lado dos teus filhos. Agora também ao lado das tuas netas, algo que tanto querias.
Tu sabes… A Íris e a Mila são duas jóias preciosas que os nossos filhos nos deram. A Íris falava — e ainda fala — muito do avô António. Gostava tanto que estivesses aqui para veres as tuas netas crescerem, para lhes ensinares a tocar viola ou piano, para partilhares com elas aquilo que sabias e, sobretudo, para lhes dares esse amor de avô que certamente terias para oferecer.
Mas o universo quis que partisses antes de elas poderem desfrutar da tua presença.
E é essa a parte que mais custa: saber tudo o que perdeste e tudo o que elas perderam.
Continuas, no entanto, presente nas nossas memórias, nas histórias que contamos, nas músicas que ouvimos e em tantos pequenos gestos do dia a dia.
A vida continuou, como tinha de continuar, mas uma parte de mim ficou contigo.
Hoje faço um bolo às duas da manhã, penso em ti, sorrio com algumas das nossas histórias e, ao mesmo tempo, sinto aquele aperto no coração que só a saudade sabe dar.
Onde quer que estejas, espero que saibas que continuas muito amado e que nunca serás esquecido.
Tenho saudades tuas, Toninho. Muitas. ❤️
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